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Entrevista a Cruzeiro Seixas

A segunda edição de Serigrafia do CPS, em 1985, foi de Cruzeiro Seixas. Desde então desenvolvemos uma amistosa colaboração que o coloca como o autor mais editado pelo CPS. Confesso a minha grande estima e admiração pessoal pelo “Príncipe do Surrealismo”, pela sua ideia de Liberdade e pela possibilidade de inclusão do Sonho no horizonte da vida, sempre preciosa, de cada um. Pela sua capacidade transformadora do Real, enaltecendo-o (Surreal). Pela sua postura artística, contemporânea de todos os períodos, mais ética que estética. Pretexto para esta breve conversa. [Entrevista de João Prates, diretor do CPS]

 

Nestes 30 anos, tem milhares de obras partilhadas nas coleções dos sócios CPS. De que forma a convivência direta com a obra de arte contribui para uma sociedade mais culta?

Essa é uma resposta que só uma biblioteca inteira saberia responder! Há uma célebre frase do Almada que diz “está tudo dito, só falta fazê-lo” e, em grande parte, isso é verdade. Tenho sempre a esperança que, ao falar com as pessoas, adiram à paixão que é minha, pela arte. Julgo que isso seria bom para elas e para mim, porque não vejo que, dentro do esquema da vida atual, haja outra forma de sermos conduzidos a uma ideia de liberdade e de satisfação completa que é o desejável para o Homem.

 

A relevância da sua Obra Gráfica e do Múltiplo de Arte é reforçada por um catálogo raisonné, em preparação e para sair em breve. Qual a sua importância para um mestre surrealista?

Para mim tem um significado de vida ou de morte. Sem isso eu não teria vivido. Eu sempre disse que aquilo que fiz foi a minha própria respiração. Não foi para fazer obras de arte, mas foi para respirar! Este país é tão estreito em espaço, tem uma fronteira terrível, estamos entalados entre Espanha e o mar, e sem recurso nenhum a um espaço mais largo, ao espaço natural ao Homem para poder respirar normalmente. E isso implica uma liberdade que nós não temos, não sabemos ter, neste país. Saímos de uma experiência de ditadura, mas temos sabido nós usar, nestes tempos pós 25 de Abril, a liberdade que nos vem da democracia? Acho que não.

Todo o vosso trabalho, de galeria e de editor, tem tido muito interesse e chegou quase ao extremo de ser único! Neste país cada vez há menos gente a fazer coisas destas…

 

De todos os processos, colagens, pinturas, escultura, etc, o desenho ocupa um grande plano na sua obra. O que tem a dizer?

O desenho foi uma coisa que nunca aprendi! Eu chumbei 2 anos a desenho na escola António Arroio. Isto até é cómico. Os professores muitas vezes precisavam também de chumbar. Agora é engraçado que de tudo o que fiz, aquilo que atinge mais o cerne do conhecimento e da profundidade do Homem, são os desenhos à pena. O resto foi falar de amor, principalmente.

 

A sua obra surpreende pela vincada identidade, pela imensidão, diversidade e ininterrupta continuidade. Estas duas serigrafias muito especiais, agora apresentadas, resultam de colagens suas feitas, por sua vez, de provas de serigráficas de outras suas obras. É a criatividade surrealista inesgotável?

Não inesgotável, esse é um termo que me deixa um pouco diminuído, fico aflito… Eu não nasci para ser vitorioso, pelo contrário, nasci para estar em falta. Uma vez alguém, com ironia, disse que havia asas demais nas coisas que eu fazia, e eu respondi que as minhas asas não eram para voar, eram para cair. São essas as asas que eu sei usar, as asas de tombar violentamente na Terra, sempre… de subir poucos metros e tombar, de subir poucos metros e tombar. E isso é o destino do Homem em grande parte, é o mais certo porque o Homem não vai nunca subir eternamente.

Até aos dadaístas, as pessoas viam os quadros com braços, mãos, com coisas que imitassem a realidade, e isso resultava num falhanço, porque a realidade é uma coisa e aquilo que o pintor quer fazer é outra. É preciso que o pintor ponha no braço ou na mão que vai fazer qualquer coisa que é muito superior ao traço, ou à tinta. E é isso que é muito difícil de fazer, pôr a Arte a vibrar apaixonadamente. A Arte é para ser apaixonada, se não for apaixonada não é Arte!

 

Apesar da sua idade, vejo-o como um jovem: tem sempre uma ideia para o futuro. Que projetos gostaria de ainda fazer?

Havia ainda exposições a fazer, sistematicamente, numa posição histórica, como uma grande retrospetiva, para eu próprio me avaliar, se aquilo valeu a pena, se o esforço valeu a pena. Eu não sei bem se o que fiz tem algum significado, e com uma grande retrospetiva ver-se-ia, se as coisas feitas em papelinhos, com furos, papel quadriculado ou com 35 linhas valeram a pena e se têm um significado perante a vida.

 

Os jovens são aqueles para quem a obra Gráfica adquire maior sentido pelos valores em causa. O que gostaria de transmitir aos jovens colecionadores?

A juventude é uma das coisas mais belas de toda a nossa experiência. Eu acho muito mais apaixonante a experiência da juventude do que a da velhice. Hoje estou com 95 anos e estou muito cansado e já não produzo nem metade daquilo que queria produzir. Quanto aos jovens, eles são toda a esperança do mundo, há que reforçar toda essa esperança e esperar que eles a reforcem também, porque vão construir o mundo amanhã e têm muito que fazer. De qualquer maneira, gostaria de ser, para todos eles, um exemplo e uma esperança. É o que gostaria de ser.

Junho de 2016