Artista muito acarinhado e de grande notoriedade, com obra reconhecida pelo grande público e pela crítica especializada, Manuel Cargaleiro tinha o desejo de que todas as casas tivessem uma obra sua. E foi efetivamente com uma serigrafia da sua autoria, “Le Petit Jardin”, que o CPS iniciou o seu trajeto, abrindo o acesso à obra deste grande pintor, a novos colecionadores.
Manuel Cargaleiro, “Le Petit Jardim”, a primeira serigrafia editada pelo CPS, em 1985.
Nasceu no concelho de Vila Velha de Rodão, Castelo Branco, cidade que viria a instituir, em 1990, a Fundação Manuel Cargaleiro e, em 2005, o Museu Cargaleiro, que alberga a sua coleção particular e um vasto espólio da sua obra.
A primeira obra comprada para a sua coleção foi um desenho de Lourdes Castro, ainda na Escola de Belas Artes de Lisboa. Cargaleiro viria a dizer que a coleção que fazia era construída sempre apenas com um sentido didático, a possibilidade de passar aos outros a experiência da descoberta e da beleza.
Ainda em criança, a família mudou-se para uma quinta na Costa da Caparica. Foi onde descobriu a cerâmica, ao observar, fascinado, um oleiro que trabalhava perto da sua escola. Iniciou-se aí toda a descoberta, experimentação e trabalho nesta área.
A sua alegria em viver foi transmitida pela frescura e luminosidade do seu trabalho artístico. A natureza foi sempre o seu tema, a captação da riqueza das cores e da luz, os ritmos e a dinâmica dos seus elementos.
A sua obra faz parte dos "Lusíadas" uma das mais emblemáticas edições do CPS, de 1994, da qual fazem parte outros artistas de renome como Júlio Pomar, Maluda ou Artur Bual.
"Quero transmitir a luz e o mistério que há em situações da natureza. É essa a minha mensagem, construtiva e verdadeira."
Manuel Cargaleiro
Sempre curioso e um grande amante da natureza, Cargaleiro estudou ciências antes de mudar para o curso de pintura, Belas-Artes de Lisboa, contra a vontade da família. A sua persistência, tenacidade e foco no trabalho deram origem a uma obra ímpar de grande originalidade e clara autoria.
Para além da cerâmica, trabalhou noutros suportes: o desenho e a pintura os mais frequentes, mas também tapeçaria e obra gráfica. No ano de 1994, participou na emblemática edição do CPS, “Os Lusíadas”, junto com outros artistas de renome, como Júlio Pomar, Maluda e Artur Bual. E em 2006, a sua relação com o CPS, deu origem à realização do belíssimo álbum de arte “Oito Canções de Outono – Sequência em Contraponto”, com poemas de Vasco Graça Moura e com obra gráfica e azulejo da sua autoria.

Manuel Cargaleiro no Atelier do CPS, com António Prates, fundador do CPS.

Manuel Cargaleiro no Atelier CPS.
Em 1957 recebeu uma bolsa do governo italiano para estudar cerâmica em Faenza, Roma e Florença. Foi também bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian para um estágio na Faiencerie de Gien, França, uma das mais prestigiadas fábricas de faiança do mundo. Em Paris viveu com Lourdes Castro e René Bértholo, criou grande amizade com Vieira da Silva e Arpad Szenes, conviveu com artistas como Max Ernst, Hans Arp ou Sonia Delaunay. Foi vizinho de Picasso, mas admite nunca ter tido coragem de lhe bater à porta.

Manuel Cargaleiro na sua Casa-Atelier, Paris, 1972. Foto de Ursula Zangger.
A sua ligação com França e Itália nunca se perdeu. Tem obra pública em diversos locais, como a conhecida estação de metro Champs Elysées-Clémenceau, em Paris e, no ano de 2004, abriu portas o Museo Artistico Industriale di Ceramica Manuel Cargaleiro, em Itália. Aos dias de hoje, podemos afirmar que Manuel Cargaleiro foi quem deu a conhecer a cerâmica produzida em Portugal, ao mundo.
Percorrer a vida e obra de Manuel Cargaleiro, é entrar numa fascinante viagem: 97 anos de inesgotável curiosidade e experimentação, abertura ao novo e espaço, sempre, à criatividade. Originalidade, simplicidade complexa – a verdade por meio de símbolos a serem descortinados. A poesia das cores e da luz, a caligrafia da natureza. A bondade, a delicadeza e a beleza expressas na vida e na pintura.

“Eu nasci a olhar para o céu e o mar. O azul acompanha-me, está sempre presente”
Manuel Cargaleiro