Grupo Homeostético
17 de Outubro de 2026

Grupo Homeostético

O lado indisciplinado da arte portuguesa

Há movimentos artísticos que nascem de um programa. Outros começam com uma vontade comum de contrariar aquilo que já existe. A Homeostética pertence claramente ao segundo grupo.

Surgido em Lisboa no início dos anos 1980, o Movimento Homeostético reuniu inicialmente Manuel João Vieira, Pedro Portugal, Ivo, Pedro Proença e Xana (Alexandre Barata), então estudantes da Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Entre pintura, desenho, música, performance, literatura e uma boa dose de provocação, o grupo desenvolveu um universo próprio, marcado pelo humor, pela irreverência e por uma deliberada recusa das convenções.

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Manuel João Vieira, "O Visconde partido ao meio", Gravura

A sua estreia pública aconteceu em 1983, na 1ª Exposição Homeostética. E dificilmente poderia ter sido mais programática: houve manifesto, hino, banda sonora, incluindo um concerto para máquina de lavar loiça e pandeireta, e até uma revista/fanzine, “Filhos de Àtila”, da qual foram publicados dois números durante a própria exposição. Estava lançado um dos episódios mais singulares da arte portuguesa das últimas décadas.

O termo homeostética foi criado em 1982 por Pedro Portugal, na sequência da leitura do primeiro volume de O Método, de Edgar Morin. Três anos mais tarde, em 1985, Fernando Brito integra o movimento, que passa então a assumir a conhecida fórmula coletiva 6=0 - seis elementos que, juntos, formavam um todo nulo ou, numa outra imagem, um universo em forma de cubo.

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Pedro Portugal

"Bananoji" / "Dalimoji" /  "Lichtensteinmoji"

Serigrafia

O humor, o sarcasmo e o non sense eram parte essencial desse universo. Mais do que simples recursos de expressão, serviam também para desafiar e pôr em causa o sistema do mercado das artes. Entre a provocação, o jogo e uma atitude deliberadamente marginal, a Homeostética aproximava-se das influências dadaístas sem deixar de construir uma linguagem própria.

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Xana, Manuel João Vieira, Fernando Brito, Pedro Proença, Ivo e Pedro Portugal
© Arco Films

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Pedro Proença, Projeto "Impressões", Gravura, água-forte, água-tinta

A exposição "Continentes", realizada em 1986, marcou simultaneamente o apogeu da "Homeostética" e o início de um processo de dissolução indefinida, que acabaria por prolongar-se sob diversas designações. A exposição atraiu um público numeroso, contribuindo para isso, o concerto ao vivo dos Ena Pá 2000, banda icónica liderada por Manuel João Viiera.

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Manuel João Vieira, "Jardim", Serigrafia

Em 2001, a candidatura de Manuel João Vieira à Presidência da República voltou a mobilizar boa parte dos homeostéticos. A iniciativa conseguiu reunir quase todas as assinaturas exigidas para a candidatura e levou a lógica homeostética até à política: uma candidatura presidencial que era, em simultâneo, performance, provocação e crítica às formas convencionais do discurso político.

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Xana, S/ Título, Serigrafia

Entre 1982 e 1986, a produção Homeostética desenvolveu-se a um ritmo intenso, dando origem a inúmeras exposições, textos, manifestos, fotografias, filmes, concertos dos Ena Pá 2000 e uma sucessão de performances coletivas. A produção foi tão variada quanto difícil de encaixar numa só categoria, e talvez fosse precisamente essa a intenção. 

O movimento acabou por deixar uma marca duradoura na cultura artística da década.

A Homeostética dissolveu-se enquanto grupo, mas não enquanto espírito, continuando a manifestar-se sob diferentes moldes e influências até aos dias de hoje.

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O percurso dos Homeostéticos foi revisitado numa exposição antológica na Fundação de Serralves, em 2004, e no documentário Homeostética 6=0, de Bruno Almeida, estreado no Doclisboa em 2008.