Miguel Chevalier é um artista francês reconhecido internacionalmente como um dos pioneiros da arte digital. Desde o início da década de 1980, desenvolve uma obra singular que explora as possibilidades estéticas e poéticas das tecnologias digitais. Através de instalações interativas, ambientes virtuais e projeções generativas, Chevalier cria universos imersivos que abordam temas como a natureza artificial, a metamorfose da imagem, a cidade virtual e a relação entre arte e ciência. O seu trabalho combina inovação tecnológica com uma forte dimensão sensorial e simbólica, questionando os limites entre o real e o virtual. Com exposições em instituições e espaços públicos em todo o mundo, a sua obra integra importantes coleções internacionais e continua a abrir caminho para novas formas de criação artística no século XXI.
Experiências determinantes, como: a frequência em 1982, em Paris, da Escola Nacional de Artes Decorativas - ENSAD, em design; onde entre várias áreas exploraste técnicas como a fotografia, o vídeo e a serigrafia iniciando assim um trabalho experimental entre o analógico e o digital e a bolsa “Lavoisier” em Nova Iorque, marcaram o teu percurso artístico, numa época (anos 1980), em que a arte digital ainda estava em fase emergente. De que forma estas vivências influenciaram o teu percurso e fomentaram o uso do computador e da arte digital para desenvolveres os teus projetos?
Entrei na École Nationale Supérieure des Arts Décoratifs (ENSAD) em 1981. A sua abordagem distinguia-se da Escola de Belas-Artes por ter uma grande abertura às disciplinas contemporâneas, como o design, a fotografia, a serigrafia, o vídeo, a cenografia... Optei pela disciplina de design, onde tive a sorte de conhecer Roger Tallon, criador do comboio Corail e do TGV. O seu espírito inovador, o diálogo constante entre arte, indústria e tecnologia marcaram-me profundamente. Desde muito cedo quis explorar as novas ferramentas de produção de imagem. Assim, experimentei a fotocópia, o riscar sobre diapositivos, a pintura sobre película de 35 mm e sobre diapositivos, bem como a gravação em vídeo de interferências televisivas – gestos experimentais que teciam um primeiro elo entre o analógico e o digital. O meu trabalho era assim empírico, baseado na experimentação e na manipulação de imagens através de diversos meios: as imagens que eu produzia no ecrã eram fotografadas, pintadas à mão e depois projetadas através de diapositivos ou passadas para serigrafia. Era uma forma de unir pintura, fotografia, vídeo e tecnologia numa mesma abordagem plástica. Foi em parte o professor e designer Roger Tallon que me incentivou a interessar pela informática e, graças ao engenheiro Serge Equilbey, pude ter acesso noturno aos computadores do CNRS. Numa época em que a informática estava reservada aos laboratórios científicos, comecei a vislumbrar o seu potencial para a criação artística. Pierre Restany, crítico de arte e fundador do movimento dos Novos Realistas, foi um dos poucos que apoiou a minha investigação num meio ainda reservado a reconhecer a legitimidade dessas ferramentas. Em 1984, a bolsa Lavoisier levou-me a Nova Iorque, onde descobri uma cena artística vibrante, mas centrada no regresso à pintura e na street art. Tive o meu primeiro contacto com um software de desenho no Pratt Institute, que acabava de abrir o departamento de infografia. Foi uma revelação. Percebi que o digital iria transformar profundamente todas as disciplinas artísticas. Essa experiência reforçou a minha convicção de que as vanguardas pictóricas já tinham explorado os limites da pintura e de que o futuro da arte residia na exploração de um novo campo “pictórico” ainda virgem, como o digital. Vi aí o potencial de criar obras vivas, generativas, interativas com o público, em contínua evolução – obras à imagem do mundo contemporâneo: móvel, complexo e interconectado.

"Complex Meshes", Miguel Chevalier, 2025 I © Thomas Granovsky
"Digital by Nature" - The Art of Miguel Chevalier, Kunsthalle München, Munique (Alemanha)
O teu ateliê, La Fabrika, tem vindo a explorar há mais de 20 anos, quatro grandes temas. Podes falar-nos sobre a forma como estes conceitos evoluíram e continuam a alimentar a tua criação?
Há mais de 40 anos que o meu trabalho se articula em torno de quatro grandes eixos: a natureza e o artificial, os fluxos e as redes, os meta-territórios e os arabescos digitais, que constituem um fio condutor na minha obra. Estas temáticas transformaram-se ao longo das evoluções tecnológicas, mas também ao ritmo das mutações do mundo. O diálogo entre natureza e artificial é, sem dúvida, o mais central. Desde os anos 80 que me interesso pela forma como os sistemas vivos podem inspirar a criação digital. Hoje, com projetos como a "Meta-Nature IA" ou o "In Vitro Pixel Flowers", interrogo-me sobre as formas de inteligências artificiais capazes de gerar universos orgânicos inéditos, onde a arte e a ciência se entrelaçam. Os fluxos e as redes traduzem, para mim, a realidade imaterial da nossa época – a das informações, das conexões, da circulação permanente de dados. As minhas instalações imersivas, como "Complex Meshes" ou "Nuage Fractal", tornam visíveis essas forças invisíveis que estruturam o mundo contemporâneo. Os meta-territórios evocam espaços híbridos, entre o real e o virtual, onde se redesenham as nossas perceções do mundo, como em "Meta-Cities AI Séoul". Questionam a forma como o digital transforma a nossa relação com o espaço, a cidade e a paisagem. Por fim, os arabescos digitais remetem para a ideia de movimento, de proliferação e de complexidade infinita, inspirados na arte islâmica, como em "Digital Zelliges". Encarnam o fluxo vital e poético que atravessa a minha obra. Todos estes temas continuam a evoluir. Enriquecem-se com as tecnologias de inteligência artificial, de realidade aumentada e de cálculo em tempo real, mas a sua essência permanece a mesma: interrogar o lugar do homem num mundo em constante mutação, na fronteira entre o virtual, o real e o artificial.
O algoritmo não é uma simples sequência de instruções, é uma matéria viva, uma linguagem poética.
A tua obra combina tecnologia avançada e expressão artística. Podes descrever-nos o teu processo de criação e de que forma colaboras com programadores e técnicos para dar vida às suas obras?
Desde os anos 90, percebi que, para explorar plenamente o potencial das tecnologias digitais, precisava de me rodear de especialistas capazes de transformar as minhas intuições artísticas em ferramentas concretas. Não tendo formação em engenharia, percebi rapidamente a importância de colaborar com informáticos e investigadores para desenvolver softwares à medida. Assim, estabeleceu-se um verdadeiro diálogo entre arte e ciência. Com colaboradores como Cyrille Henry, Claude Micheli, Antoine Villeret ou Nicolas Gaudelet, concebemos programas específicos para cada projeto. Esses softwares tornam-se para mim como um instrumento musical, um “piano digital” a partir do qual posso compor uma infinidade de variações visuais, generativas e interativas. Cada obra nasce de um longo processo que frequentemente dura dois a três anos, ou mais, combinando conceção, programação, testes e ajustes. Experimento, reescrevo algoritmos, testo a fluidez das formas, das cores, dos movimentos, até alcançar o equilíbrio poético e visual que procuro. Desta forma, nasceram projetos emblemáticos como "Fractal Flowers", "Trans-Nature", "Complex Meshes", "Meta-Cités", "Nuage Fractal" ou "Terra Incognita", entre outros. Todos testemunham a minha convicção profunda: a tecnologia não é um fim em si mesma, mas o prolongamento do gesto artístico, um meio de ampliar a nossa perceção do mundo e de dar corpo a universos que, sem ela, permaneceriam invisíveis.
EDIÇÃO CPS
Miguel Chevalier, "Splash 4", Serigrafia, 88 x 70 cm, Edição de 40 exemplares, 2025
Nos teus projetos, a arquitetura e a música assumem um papel central: colaboras com compositores que criam peças exclusivas para os teus projetos e integras igualmente cidades virtuais como parte da experiência. De que forma a arquitetura e a música influenciam e moldam a perceção do público e o desenvolvimento das tuas instalações?
A arquitetura e a música estão no cerne do meu trabalho, pois transformam cada instalação numa experiência imersiva. Cada lugar possui a sua própria ressonância: componho com o seu espaço, a sua luz, a sua história. No que toca à música, colaboro frequentemente, quando o orçamento o permite, com compositores cuja criação sonora atua como uma matéria viva que dialoga com as minhas imagens e amplifica a emoção. Na obra de arte total "In/Out Paradis Artificiels" (2017), em Chaumont-sur-Loire, a música generativa e a espacialização sonora criadas por Jacopo Baboni Schilingi envolvem o espectador num verdadeiro teatro sensorial. Em "Digital Supernova", na catedral de Rodez, os cânticos litúrgicos transformados por algoritmos criam uma atmosfera meditativa em ressonância com a arquitetura gótica. Por fim, com Michel Redolfi, em "Oscillations" (2021), o som interage diretamente com as imagens, gerando paisagens visuais em perpétua mutação. A arquitetura e a música moldam as minhas obras como catalisadores de emoções e de imaginação.
Sou quem escolhe, interpreta e dá sentido. A IA não cria sozinha, ela aumenta o imaginnário.
Um programa de computador é, essencialmente, um algoritmo que define as operações a executar. Como traduzes essa linguagem técnica, o algoritmo, em emoção, cor e forma artística?
Para mim, o algoritmo não é uma simples sequência de instruções, é uma matéria viva, uma linguagem poética. Gosto de desviar o seu uso inicial para o conduzir à emoção e à sensibilidade. O código permite-me gerar formas, movimentos, fluxos de cores imprevisíveis. Trabalho em estreita colaboração com os programadores que referi anteriormente, para criar softwares à medida, pensados como instrumentos de criação. Cada parâmetro - velocidade, densidade, luz, ritmo, funciona como uma pincelada. O acaso desempenha também um papel essencial: introduz o imprevisto, a vida. Desta forma, o algoritmo torna-se um gerador de universos poéticos. Por trás da aparente frieza do código, procuro sempre revelar uma dimensão sensível, uma emoção visual que amplia o domínio da arte.
EDIÇÃO CPS
Miguel Chevalier, "Splash 6", Serigrafia, 88 x 70 cm, Edição de 40 exemplares, 2025
Com o avanço da inteligência artificial, surgem os prompts como novas ferramentas criativas. De que modo os utilizas e como vês o papel do artista enquanto “autor” num processo partilhado com a máquina?
A inteligência artificial abriu um campo de exploração inédito no meu trabalho. Não é um fim em si mesmo, mas uma ferramenta que amplia consideravelmente as minhas possibilidades criativas. Para a minha instalação monumental "Meta-Nature IA", em Seul (2023), utilizei a IA para gerar um banco de imagens a partir de prompts, ou seja, de pedidos textuais que orientam a máquina. Assim, produzi novas formas vegetais, quase orgânicas, que evocam ressonâncias magnéticas de flores, de folhagens ou de texturas de árvores. Essas imagens, introduzidas num software concebido com Claude Micheli, permitem-me criar um jardim virtual evolutivo, atravessado por transparências, irisações e efeitos de trompe-l’oeil. Os prompts são, para mim, ferramentas de escrita visual, uma nova forma de dialogar com a máquina. Continuo a ser o verdadeiro autor: sou eu quem escolhe, interpreta e dá sentido. A IA não cria sozinha, ela aumenta o meu imaginário. Permite-me ir mais longe, ultrapassar os nossos próprios limites e, ao mesmo tempo, redefinir o que pode ser a criação artística hoje.
O teu projeto "Herbário/Sur Natura", onde o público interage com sementes virtuais e jardins digitais, é um exemplo do diálogo entre natureza, tecnologia e participação do público. Como surgiu esta ideia?
A ideia destas obras nasceu do meu fascínio pela natureza e pelos seus processos de crescimento, de mutação e de adaptação. Desde o final dos anos 90 que exploro a ligação entre o mundo orgânico e o mundo digital, procurando compreender de que forma a tecnologia pode reinventar a nossa relação com o vivo. Os diferentes herbários "Sur-Nature", "Fractal Flowers" ou "Extra-Natural" são compostos por sementes virtuais que me permitem criar jardins virtuais onde essas sementes crescem, florescem e depois desaparecem, segundo algoritmos inspirados na biologia e nas fractais. Aqui, o espectador torna-se um ator: através dos seus gestes ou dos seus movimentos, interage com estes universos em constante evolução. Estas obras questionam a nossa relação com a natureza num mundo dominado pelo digital. Para mim, simbolizam uma natureza recriada, poética, e uma forma de vida artificial, uma “segunda natureza” nascida do código, onde a emoção se une à tecnologia.
O futuro da arte reside nesta aliança entre inovação e humanidade, entre o código e a emoção.
O tempo e a interação com o público são centrais nas suas obras generativas. Como geres esta dimensão temporal e de que forma a presença do espetador transforma a obra em algo vivo e participativo?
O tempo e a presença do público são elementos importantes no meu trabalho. Nas minhas obras generativas e interativas, nada está fixo: tudo é movimento, transformação e metamorfose. O que me interessa é criar dispositivos em que o espectador se torne ator e que a sua simples presença desencadeie ou modifique a obra. Em vez de a receber passivamente, o público ativa a obra, dá-lhe vida e torna-se numa componente integrante dela. Desta forma, as minhas instalações não mostram apenas o que se vê, confrontam-nos com o nosso próprio olhar. Vemo-nos a olhar. Essa interação e essa imersão na obra criam uma relação íntima e imediata com a imagem, uma forma de despertar o estado sensorial e reflexivo.
Tens exposto o teu trabalho em inúmeros museus e instituições em todo o mundo, consolidando um percurso internacional notável. Podes falar-nos sobre algumas dessas experiências expositivas e, em particular, sobre a tua mais recente exposição, "Digital by Nature", atualmente patente no Kunsthalle de Munique? Que ideias e desafios quiseste explorar neste projeto?
Há mais de quarenta anos que as minhas exposições pelo mundo me têm permitido explorar a relação entre arte, ciência e tecnologia em contextos culturais muito diferentes. Cada lugar ou espaço público oferece uma experiência única e convida-me a repensar as minhas instalações em função da sua arquitetura, da sua luz e do público que as descobre. A minha recente exposição "Digital by Nature", na Kunsthalle de Munique, marca uma etapa importante no meu percurso. Esta exposição exigiu dois anos de trabalho com a curadora Franziska Stohr, que selecionou cerca de uma centena de obras de entre o conjunto da minha criação. Esta mostra, que se estende por 1.700 m², interroga as metamorfoses do vivo, os fluxos de energia e as hibridações entre o artificial e o orgânico. Destaca igualmente o papel crescente da inteligência artificial no meu trabalho, nomeadamente com a obra "Meta-Nature IA", na qual exploro a capacidade dos algoritmos para gerar novas formas de vida virtuais. Um dos grandes desafios deste projeto foi transformar o espaço deste centro de arte num verdadeiro ecossistema digital, onde o visitante circula por entre instalações generativas, algumas interativas e em constante mutação, mas também obras físicas, esculturas em impressão 3D que materializam o virtual, e um robô que desenha todos os dias diante do público. Quis oferecer uma experiência sensorial das minhas pesquisas, entre a contemplação, a imersão e a reflexão sobre a nossa relação com um mundo cada vez mais tecnológico, que é o reflexo do que vivemos.
EDIÇÃO CPS
Miguel Chevalier, "Splash 7", Serigrafia, 88 x 70 cm, Edição de 40 exemplares, 2025
A série "Splash" composta por sete serigrafias (integrada nos 40 anos do CPS), revela formas orgânicas e luminosas inspiradas nas profundezas marinhas, recreadas pelo universo digital. Podes falar-nos sobre o conceito desta série e de que forma ela reflete a tua exploração contínua entre o imaginário natural e a criação tecnológica?
Na série "Splash 1 a 7", quis capturar um momento suspenso, aquele em que a água, a cor e a energia digital se fundem numa explosão de formas orgânicas. Estas obras nascem de um diálogo entre o mundo aquático e o universo virtual, como se a tecnologia permitisse à natureza reinventar-se. Os jatos sinuosos e os salpicos de vermelhos, azuis, laranjas ou verdes fluorescentes evocam simultaneamente algas, anémonas-do-mar ou fluxos em expansão. Cada serigrafia torna-se o espelho de um ecossistema imaginário, vibrante de bioluminescências artificiais, um mundo a meio caminho entre o vivo e o digital. Através desta série, continuo com a exploração da fronteira entre natureza e tecnologia: como é que as ferramentas digitais podem prolongar as forças vitais do mundo natural, dando-lhes novas formas, mais fluidas, mais luminosas e quase espirituais.
A serigrafia tem sido uma técnica presente no teu trabalho desde os primeiros projetos experimentais. Ao realizares as sete edições com o CPS, que valor atribuis à técnica da serigrafia, e, por outro lado, que papel concedes ao CPS enquanto editor e promotor da obra gráfica original, tornando a arte mais acessível a um público mais vasto?
A técnica da serigrafia ocupa um lugar importante no meu percurso, pois permite uma grande liberdade cromática e uma materialidade que o digital, por si só, não pode oferecer. Com o CPS, pude realizar a série "Splash 1 a 7" em tons diretos, utilizando nomeadamente tintas fluorescentes impossíveis de reproduzir em impressão digital. Essa intensidade luminosa, quase vibrante, confere às obras uma presença física e colorimétrica única. Aprecio também a serigrafia pelo seu lado artesanal, é uma técnica que liga o mundo analógico ao digital, tornando simultaneamente a arte mais acessível. O papel do CPS é, a este respeito, notável: promove e defende a possibilidade de realizar múltiplos em serigrafia como uma forma de arte plena, que permite a um público alargado colecionar obras originais contemporâneas a um preço acessível.
Olhando para o futuro, como imaginas o desenvolvimento da arte digital e a sua integração numa sociedade cada vez mais tecnológica?
A arte digital continuará a expandir-se e a integrar cada vez mais o nosso quotidiano. Os avanços da inteligência artificial e dos mundos imersivos abrem campos de criação inéditos, mas também colocam profundas questões éticas e estéticas. O desafio é não nos deixarmos submergir pela técnica, mas colocá-la sempre ao serviço do pensamento e da poesia. Acredito numa arte digital mais consciente, simultaneamente crítica e sensível, capaz de refletir sobre os grandes desafios do nosso tempo: ecológicos, sociais e tecnológicos. O artista deve continuar a ser um explorador, um mediador entre estes mundos. A meu ver, o futuro da arte reside nesta aliança entre inovação e humanidade, entre o código e a emoção.