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Branislav Mihajlovic

Rituais de Luz

Data: 20/05/2006 - 17/06/2006

Local: CPS Sede

"(...) o homem foi criado para participar activamente do espírito divino" Titus Burckhardt - Alquimia. A arte do pintor jugoslavo Branislav Mihajlovic actualmente patente num conjunto de serigrafias intervencionadas situa-se no plano de uma profundidade arquetipal que nas margens do seu silêncio e da sua meditação, da sua contemplação nos remete para o limiar do indizível, de um silêncio pleno de evidências, território do mito e do Sagrado. Artista precoce, completou os seus estudos de arte em 1986 na Academia de Belas-Artes de Belgrado aos quais se seguiu a realização de um Mestrado em pintura. Viajando pela Europa acabou por fixar-se por dois anos na Holanda e por se radicar no nosso país desde 1992, onde expõe individualmente desde 1994. Branislav cresceu sem qualquer formação religiosa e só bastante tarde leu a Bíblia em busca das referências fundadoras da história de arte universal. O que parecia uma pesquisa meramente cultural deixaria no entanto traços mais fundos do que o previsto. A palavra bíblica foi portadora não apenas de sentido, mas de uma luz e de um conhecimento, uma sabedoria antiga que se traduz em símbolos e motivos simbólicos no conjunto de serigrafias intervencionadas que nos apresenta actualmente e que surgem de mais longe, de outras etapas da viagem que tem vindo a empreender rumo às suas raízes, às raízes do Ser. A mulher tem um lugar de destaque neste universo, imagem de calma sensualidade apelando para a cumplicidade da natureza que a envolve num manto de luz. Entre a luz e as sombras, o claro esplendor do corpo na sua nudez semi-velada que aumenta o seu encanto, no cenário de um jogo de formas geométricas e orgânicas, de manchas e de cores subitamente acesas pela chama central e vermelha. Jogos do corpo e da pintura, do corpo da pintura. A série dos retratos remonta aos "Ikonostasis" de 1995, uma tentativa de realizar uma iconologia do humano, diversas raças, diversas idades, os dois sexos, rostos sem expressão e no entanto inquiridores, perscrutando os limites de uma condição precária e banhados por uma atmosfera dourada de ícone suspenso entre dois tempos e duas fronteiras que afinal se fundem sob a acção alquímica do ouro tranfigurando o desenho precioso em pura luz, quase aparição de uma beleza perturbadora e cintilante Experiência do Sagrado enquanto desejo e ausência, apelo silencioso. O pintor aventurou-se no pórtico de um silêncio antigo em interiores de conventos inundados por uma claridade fantasmática, de outro mundo, que se derrama em sombras que persistem e guardam o seu mistério. Na série dos conventos (que se filia na do "templo d'ouro - tempo de ouro" de 1996) a luz dourada é a iridescente irradiação do Sagrado, laço entre o humano e o divino, como as grandes atmosferas de luz, paisagens irreais, de uma realidade mais real, povoada de pequenos símbolos que são marcos no universo da alma, pedras na luz (a pedra, imagem recorrente pode simbolizar a alma), livros de uma sabedoria ancestral, receptáculos de tesouros do espírito, marcas e marcos no mapa de uma geografia interior. O artista dá continuidade aos temas e obsessões estruturantes deste universo que vão ganhando um sentido organizados por uma lógica oculta. Carris, pedras evocam a viagem e o seu arquétipo, o êxodo bíblico que deu o título a uma tela de 2000. Viagem cuja terra prometida parece ser a pátria de um espírito que deseja a luz inicial, totalidade perdida de uma relação com o divino e com uma natureza devolvida ao seu esplendor. Atmosferas escorridas, luminosos oceanos de cores suaves, líquida imensidade íntima, clarões diáfanos de um calor palpitante de rosas e perfumes, chuva de lilases matutinos, constroem com austeridade e beleza inauditas uma nova, sóbria e contida imagem para o Sagrado nos nossos dias, como a que sugere a mesa com o pão e o vinho evocando a Última Ceia e a Comunhão que lhe está associada. Imagens de uma espiritualidade maior, de um vazio cheio de ecos de uma música dos anjos, das flores, do mar e das fontes azuis, espiritualidade e sensorialidade em núpcias felizes, balsâmicas. Uma virtualidade de gestos criadores em novos rituais de luz e de amor. Amor sem destinatário determinado, a não ser toda a humanidade, amor que nasceu da ausência e da impossível solidão, que deambulou em ruínas, em cais de nenhuma parte, em cidades mudas e frias como o Inverno da alma e que talvez ao calor de um novo mar, de um novo lar, de uma nova cálida paisagem, a nossa, bem portuguesa, solar e aurífica, como um novo livro de Deus, recuperando a própria e desconhecida herança perdida, se abriu em sorrisos de luz quente, em marinhas clareiras do paraíso na sublime arte de Branislav Mihajlovic.

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