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Entrevista a José de Guimarães

José de Guimarães é considerado um dos principais artistas plásticos portugueses de Arte Contemporânea, tendo uma vasta e notável obra na pintura, escultura e outras atividades criativas, o que faz com que seja dos mais galardoados artistas plásticos Portugueses. Muitas das suas obras estão expostas em diversos museus Europeus, bem como nos Estados Unidos da América, Brasil, Canadá, Israel e até no Japão. 

Em 2012 foi inaugurado em Guimarães o Centro Internacional das Artes José de Guimarães (CIAJG), dedicado à arte contemporânea e reunindo peças das coleções do artista de Arte Africana, Arte Pré-Colombiana e Arte Chinesa Antiga.

José de Guimarães sempre atribuiu particular atenção e exigência à sua obra gráfica. Desde 1962 já realizou perto de 400 obras, explorando variadas técnicas. Recentemente efetuou a segunda doação de Obra Gráfica à Biblioteca Nacional de Portugal que inclui todas as edições efetuadas desde 1991.

Apresentando-se agora a segunda edição especial, conversámos com o artista.

 

Que importância atribui à obra gráfica e ao múltiplo no contexto da sua obra?

Curiosamente, iniciei a minha vida de artista como gravador. Comecei na Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses em 1958/59, o que foi ótimo, porque aprendi uma técnica nova. Na altura existia sobretudo gravura em metal, xilogravura e pouco mais; posteriormente, aprendi litografia na Suíça, quando fiz a primeira edição, a litografia com decalque (desenho numa folha especial, com cola, e decalcava-se para uma pedra litográfica). Posteriormente, embrenhei no mundo da serigrafia, que, do ponto de vista de realização, de técnica é, quanto a mim, a mais difícil. Porque há um lado de aparato técnico onde também a fotografia é fundamental. Essa foi a razão de eu ter tido, durante dois anos, uma bolsa da Gulbenkian, para estudar serigrafia fotográfica. No âmbito dessa bolsa, fiz algumas das gravuras mais importantes da minha história, nomeadamente toda a série 1º de Maio, que tem processos técnicos de sobreposição de formas que jogam com os vários solventes, que reagiam entre si. São técnicas difíceis, que exigem uma dedicação e prática constante. Mas, de facto, de uma forma geral, no meu percurso, quando desenvolvia novas séries em pintura (série Rubens, México, Camoniana, os fetiches, etc.), editava também sempre múltiplos, em serigrafia, litografia, xilogravura, etc. A edição de múltiplos permite que as pessoas com menos capacidade económica adquiram obras numeradas e assinadas pelos artistas, com a qualidade de um original.

 

No âmbito da doação do segundo conjunto de obra gráfica à Biblioteca Nacional, perfazendo quase 400 obras, que planos existem para o futuro?

O que está previsto é, para 2019, uma grande exposição de toda a obra do acervo da Biblioteca Nacional. Nessa altura será editado um catálogo raisonné com toda a obra gráfica editada até à data.

 

Isso significa que este universo ficará mais dignificado porque, infelizmente, existe ainda um certo estigma em relação à obra gráfica…

Mas isso é cá em Portugal porque, por exemplo, em Espanha a obra gráfica é extremamente importante. Os maiores pintores espanhóis têm uma obra gráfica extensa: Miró, Picasso, Tapiès, outros mais jovens, etc. Em França acontece o mesmo. As minhas edições, publicadas em França, todas elas estão na Biblioteca Nacional de Paris, no chamado Depósito Legal. Nem sou eu que trato disso, é desde logo uma obrigação por parte dos editores.

 

Assim como nós temos o protocolo com a Biblioteca Nacional para doação de obras, para dignificação, preservação e memória futura das nossas edições…

Claro.

 

Enquanto a serigrafia anterior editada pelo CPS evocava Pessoa, esta, agora apresentada, presta tributo a Camões. Como vê a redefinição de portugalidade através deste poeta?

Camões é um poeta que sempre me interessou, não só pela sua arte poética, capacidade de síntese, mas também pela vida que levou, um apaixonado, um valente, alguém que interiorizou melhor que ninguém a História de Portugal. Quando vou de férias levo sempre os Lusíadas comigo. Posso não levar mais nada mas levo sempre os Lusíadas. E vou lendo. Já li, reli e voltarei a ler. Faz parte dos meus genes.

 

Mais especificamente, que significado atribui à relação de Camões e Dinamene e ao simbolismo desta serigrafia?

Dizem que a Dinamene morreu num naufrágio e ela aparece ali como se fosse um náufrago, mas mesmo assim Camões dialoga com ela, com a sua amada. É uma cena de paixão, entre o poeta e a sua musa.

 

Considerando a cultura como uma manifestação de engrandecimento das sociedades, de que forma a convivência direta com a obra de arte contribui para o aperfeiçoamento da sociedade contemporânea?

Os artistas procuram sempre atingir aquilo que é mais sublime, mais espiritual, o que melhor comunica… Acho que a sua atividade faz bem ao mundo. Se não fosse assim não se perceberia para que servia. A arte faz parte do engrandecimento do espírito.

Novembro de 2017